QUANTO

Quantas camas não bagunçadas, suadas, reviradas. 

Quantas escadas silenciosas de gemidos abafados e inconsequentes.

Quantos metros não virando quilômetros com as rodas ansiosas dos carros que precisam chegar logo.

Quantos pulmões não ficando sem ar.

Quantas línguas não tendo a única pele que desejam experimentar.

Quantas madrugadas tediosamente bem dormidas.

Quantos vizinhos não invejosos.

Quantas televisões não aumentando o volume.

Quantas provas de que o medo tem feito mais mau aos casais que o amor.

DOMINGUEIRAS

Belas manhãs de domingo são sempre acompanhadas de cocotas uniformizadas em calças “legging” e cachorrinhos de estimação como acessório, no bairro do Jardim Paulista, em São Paulo. 

Vemos todas as raças: a-tia-cinquentona-que-acha-que-tem-vinte-anos, a-menininha-de-quinze-com-hormônios-saltitantes-e-orgulhosa-por estar-chamando-a-atenção-na-roupa-colada, a-menina-do-rabo-de-cavalo-feito-às-pressas-para-atender-ao-chamado-da-natureza-de-seu-desesperado-cãozinho, a-moça-com-o-marido-que-quer-mostrar-que-mesmo-após-o-casamento-ela-não-embarangou, a-menina-com-óculos-escuros-gigantes-para-cobrir-a-cara-de-balada-da-noite-anterior, a-moça-que-nem-devia-estar-numa-calça-“legging”-mas-usa-mesmo-assim-afinal-é-praticamente-um-dress code, a-menina-que-quer-mostrar-que-é-comportada-e-por-isso-amarra-um-moletom-na-cintura-mas-que-olhou-a-bunda-no-espelho-327-vezes-antes-de-sair-de-casa e tem também a menina-que-não-vai-apenas-passear-com-o-cachorro-mas-também-vai-fazer-um-exercício.

Uma delas estava na rua, quando, do nada, apareceu um cara. Simpático, ele logo brincou com o cachorro: fez carinho, agitou o bicho, falou com aquela vozinha que a gente fala quando está se comunicando com animais, bateu palma. A menina sorriu. O cara virou pra ela e perguntou seu nome. A menina respondeu, ajeitando o cabelo por trás da orelha. E iniciaram um papo.

Ela sorria. Ele sorria. Ela sorria de volta. Ele sorria mais. E conversavam sem parar. Descobriram que moravam perto, que andavam sempre por alí e se espantaram por nunca terem se visto. No exato momento que ele pediu o telefone dela, o cachorro começou a fazer cocô.

A gente vive dizendo que a vida é engraçada. Mas, aos olhos dela, acho que engraçado somos nós.

VOU FALAR DE PROPÓSITO

São Paulo, 17 de junho de 2013 às 22h 52

 

Aos amigos manifestantes um aviso: vocês não vão gostar do meu texto. Porque percebi nos últimos dias que a maioria esmagadora fala de opressão, mas sequer respeita as opiniões diversas.

Hoje, eu fui pra rua ver de perto o movimento. Vivi esse momento histórico pelo qual o país está passando. E, sinceramente, fiquei desapontado.

Logo que eu me misturei a multidão, na Avenida Berrini, a primeira sensação foi de medo. Mas, depois, me senti muito tranquilizado pela organização e pelo espírito de paz dos manifestantes. Foi então que fiquei à vontade para perguntar a uma das pessoas:

- Daqui nós vamos para onde?

De pronto ela me respondeu:

- Não sei, tâmo indo.

Então, fiz a mesma pergunta a uma outra pessoa, que balançou a cabeça deixando claro não saber, e rapidamente ela voltou a entoar os gritos que estava a dizer junto com a massa: ” Que coincidência, sem polícia não tem violência”.

Bom, talvez as pessoas desse “pelotão” não soubessem. Insisti perguntando a mais e mais pessoas. E, do começo ao fim da manifestação (porque eu fiz questão de ficar até o último segundo) ninguém, pasmem, NINGUÉM sabia para onde estava indo. Ao todo eu perguntei para 11 pessoas.

Acho que esse reivindicar sem rumo, infelizmente, é uma metáfora triste do que está acontecendo.

Mas o pior de tudo, na minha opinião, foi a falta de propósito. Tudo começou por R$ 0,20 e a verdade é que agora ninguém sabe mais. 

Qual é o foco da manifestação?

Havia cartaz “Fora Alckmin”, havia cartaz “Pela Paz”, havia cartaz “Chega de ser Manipulado” (com o símbolo da Globo), havia cartaz “Abaixo Dilma”, havia cartaz “Essa Copa é um Absurdo” entre tantos outros que eu nem vou lembrar.

A VERDADE É QUE AS PESSOAS NÃO SABEM MAIS PORQUE ESTÃO ALÍ. E, CASO A GENTE NÃO ENCONTRE UM PROPÓSITO MAIS CLARO PARA LUTAR, NADA DISSO VAI TER VALIDO DE NADA DAQUI UNS MESES. NÃO PODEMOS DEIXAR ISSO ACONTECER.

Dia 22 tem uma manifestação que, na minha opinião, tem um propósito bem claro. Tem foco e é importante para o país. Vou deixar aqui o site para os interessados. Infelizmente, estarei no Rio de Janeiro fim de semana à trabalho, mas nesta eu gostaria de ir: http://naoapec37.com.br/

Precisamos urgente achar um motivo para continuar indo às ruas. E, principalmente, um bom motivo para ir às urnas.

E SE NIEMEYER ENCONTRASSE UM OUTRO ARQUITETO?

- (Com cara de espanto) V-o-c-ê?

- (Ar cínico) Uhum.

- Mas eu não acredito em você. Sou ateu.

- Eu sei.

- Não, não pode ser. Na verdade, nada disso é real. Você não é você. Eu simplemente morri.

- É assim que você quer pensar?

- Aposto que é tudo ilusão. Deve ser algo que só está acontecendo no texto de um idiota qualquer. E, por favor, pare de falar assim, com esse ar de superioridade, monossilábico. É irritante.

- Eu sei.

- (Um tanto irritado) Para, pelo amor de deus.

- Ah! Te peguei. Isso é frase de ateu?

- É maneira de dizer. Você não é o sabe-tudo? Devia saber.

- Eu sei. Só queria te irritar.

- Bom. Já que chegamos aqui, de um arquiteto para outro, seu projeto não é bom.

- Como meu projeto não é bom? Melhor que qualquer um dos seus.

- Não é, não. Eu tenho prêmios, honrarias. Posso provar que meus projetos são bons. Você não.

- Mas o meu projeto vocês que traçaram. Livre arbítrio, lembra?

- Que conveniente.

- Mas onde você quer chegar? 

- Em nenhum lugar. Só queria te irritar.

- Eu sei.

- Então, você também sabe que eu vou dizer que seu projeto só tem gente corrupta.

- E você, que projetou Brasília? 

- Onde essa discussão vai parar?

-  O céu é o limite.

- Péssima piada. 

- Eu gostei.

- Bom, é o seguinte. Eu quero voltar. 

- Para a Terra?

- Não. Para debaixo da terra. Eu morri. Não acredito em você. Essa conversa está surreal. Só está acontecendo nesse texto.

- Creio que isso não será possível.

- Ah! Você não é onipotente, onisciente, universal?

- Universal não, filho. Universal, não.

LERÊ

Dizem que a gente se perde na bagunça. Mentira. O que a gente perde mesmo é espaço. E, principalmente, espaço para o pensamento novo que vem quando acumulamos referências boas. Essa foi a conclusão que tirei depois organizar de leve meu quarto.

A bagunça estava tão grande, que dos 10 mais procurados pela CIA, 3 eu encontrei por lá. Sou do tipo de acumula livros, revistas e DVD’s, a maioria deles fica espalhado pelo chão. Tenho restrições contra prateleiras. Gosto de simular ambientes sem poluição visual na altura dos olhos (mas não consigo). Estava tão grande que era impossível abrir o armário sem esbarrar no Machado de Assis, andar sem chutar o Reinaldo Morais, sentar sem esmagar o Woody Allen. E, convenhamos: eles merecem tratamento melhor.

Então, comecei a arrumação: “O Último Samurai”? Mas por que porra de motivo eu tenho o DVD do “O Último Samurai”? Já que o filme é um lixo, merecia estar no latão. E para lá ele foi. Conta de telefone de outubro de 2011? Só me fez lembrar o quanto paguei caro para falar com minha ex-namorada. Foi para o lixo, encontrar o sentimento que eu tinha por ela, e que já estava lá faz um tempão. Livro do “Encantador de Cães”? Caralho, Ricardo, o que você precisa adestrar é seu impulso de comprar besteira. Lixo.

E assim foi. Foram cerca de duas horas de organização. Agora, não só o Machado de Assis, o Renaldo Morais e o Woody Allen estão em lugares de maior prestígio, às suas alturas, como também sobrou espaço organizado para eles ganharem novas e boas companhias.

'HISTÓRIAS REALMENTE REAIS' APRESENTA: O GOSTO AMARGO DO CARAMELO.

Era pobre. Quando seu pai morreu, com o dinheiro da herança comprou um Camaro Amarelo e ficou doce igual caramelo. Vivia tirando onda no seu carro importado, sempre cercado de mulheres. Era natural que acabasse despertando a inveja de muitos. Principalmente porque, como gastara tudo no possante, continuou morando no mesmo bairro 

simples em que crescera. 

Certo dia, o Camaro Amarelo desapareceu. Há quem diga que foi roubo. Há quem diga que foi armação. O fato é que sem dinheiro guardado, investimentos ou seu pai para ajudar nas despesas da casa, ficara muito mais pobre do que fora um dia. 

Hoje, deve 4 meses de aluguel, está para ser despejado e não troca o óleo de mais nenhuma mulher.

(ATÉ O PRÓXIMO CAPÍTULO DE ‘HISTÓRIAS REALMENTE REAIS’ - NÃO É A VIDA COMO ELA É, MAS SIM COMO PODERIA SER)
A CULPA É SUA.

24.08.2012. 

Uma breve e indignada opinião à respeito do julgamento do Mensalão e do Dr. Lewandowski.

A CULPA É SUA
A culpa não é do Lewandowski. É sua que não se interessa por política, que não sabe votar, que se omite diante da urna. É sua que aperta o botão verde de confirma como se fosse o botão “foda-se”. É sua que se ocupa demais com novela e futebol, e de menos com seu país. É sua, cuja a única posição política que adota é de quatro. É sua que vê a impunidade absolver e terá de absorver. É sua que espera a tragédia bater na sua porta para se indignar, que não age e nem reage, que se conforta em conformar.

Mas não se sinta culpado: Lewandowski absolve.

Ironias Sutis

Na minha opinião, ironia é uma característica que diferencia as pessoas. E, falando agora do alto da minha arrogância, acho mesmo que alguém que tenha a picardia de uma tirada maldosa bem colocada, aquela observação mais afiada ou um argumento pontiagudo é mais interessante do que alguém que não tem.

Nesse sentido, é impossível não admirar a vida. Ninguém é mais irônico. Ninguém. Principalmente, quando ela nos presenteia com uma de suas ironias sutis. Se pudesse, dava um beijo em sua boca.

Pois bem. Acabei de ler que o Eike Batista perdeu R$ 13 bi em dois dias. Ele continua rico. Bilionário. E eu feliz porque, hoje pela manhã, achei R$ 20,00 no bolso do meu casaco.

O AMOR É LINDO.

Dizem que o corpo fala. O dela grita. Um movimento mais ousado de quadril é suficiente para deixar qualquer subpica, no mínimo, semi-tesa, à meio pau, dando bandeira através do volume da calça. Para isso, academia. Muita academia. Tesão em séries de 12, minuciosamente gerenciadas por um personal trainer. Alimentação especial: carboidratos integrais, controlados, só na hora do almoço e antes do treino. Peito frango grelhado sem óleo, legumes cozidos no vapor. Bebida: suco natural de limão com adoçante. Gastronomicamente falando, uma xiita. O prazer, que não vem da comida, vem de ser comida. 

Na matéria conquista, seu curriculum é ainda mais vasto. Tem graduação em maquiagem-certa-para-um-rosto-perfeito, pós-graduação em roupas-que-valorizam-bunda-peito-coxa e doutorado em cremes-caros-para-uma-pele-jovem-bonita-cheirosa-e-macia. Tem também um curso de vinhos. Não enóloga, não enochata. Mas enófila de final de semana para não estragar a dieta. Gosta de cinema, Coppola, Woody Allen, Hitchcock, Kubrick, para falar dos americanos. Gosta também do cinema argentino. Tem uma queda pelo ator Ricardo Darín.

Há 8 meses atrás não era assim. Namorava. Tinha 7 quilos a mais. Trabalhava em um emprego medíocre. Sua felicidade vinha da expectativa daquilo que o namorado poderia fazer para surpreendê-la. E, nesse quesito, ele não decepcionava: nunca fazia nada. A não ser pegá-la às sextas de noite para passarem o fim de semana juntos, em casa, assistindo TV, e depois levá-la de volta , domingo de noite. A única atitude inesperada do rapaz foi um pé na bunda.

Foi nesse momento que a transformação começou. Porque ela queria mais da vida. Queria ser mais legal, mais gostosa, mais interessante, mais, mais, mais. E conseguiu. É uma mulher desejada. Tem os homens que quer aos seus pés, aos seus peitos, à sua coxa, à sua boceta. Tem. Mas ela diz que está cansada disso. Sente que está na hora de se relacionar de novo. Ter uma pessoa e ser de uma pessoa. Pessoa especial. Aquela que todos querem, mas ninguém encontra porque só existe na novela, sabe?

Mas, dessa vez, parece que encontrou.

Está saindo há 3 semanas com Alan. Segundo ela um cara bacana, que daria até para ficar junto. Tem seu carro, sua casa, trata bem, é decente quando está em sua frente. Um bom partido. Ela tenta disfarçar a empolgação. Ao que tudo indica, ele idem.

Sexta-feira, o combinado. Ele vai passar para pegá-la. Vão ficar o final de semana juntos, assistindo ao box de seriado que ele disse que tem. Vão pedir pizza e fazer brigadeiro. Vão fazer sexo. E domingo, ele a deixará em casa novamente.

Ela está apaixonada.

DIVAGAÇÕES ENTRE A 1ª E A 2ª.

São Paulo, em dia de chuva, é um verdadeiro teste de personalidade. Ontem não foi diferente.

Saí do trabalho por volta das 19h. Tinha que chegar a um compromisso às 20h em ponto. E ponto. Até aí, tudo normal. Mas havia chovido. O trânsito estava um pouco mais insuportável que o usual, daqueles que permite responder a um e-mail ou dois antes de engatar a primeira e avançar poucos metros. Ou daqueles que faz você se sentir culpado por não ter dinheiro para comprar um helicóptero.

Depois de algum tempo, não muito para alguém agitado como eu, a irritação passou a ser completa. Liguei o som do carro para aliviar o stress. Não que o shuffle bipolar do meu iPod consiga realizar essa tarefa com maestria. Mas naquele momento serviu. Então, o vidro do carro começou a embaçar. Liguei o desembaçador. Vi que a bateria do meu celular estava em apenas 10%. Liguei o carregador no acendedor de isqueiro e pronto. O carro estava alí, cínico, passando a falsa sensação de que poderia resolver todos os meus problemas.

Uma hora e quarenta minutos de puro trânsito paulistano depois, cheguei a meu compromisso. Às 20h 40. Estava moído: dor nas costas, dor no braço, cansaço e mau humor. Mas o carro estava normal. Pronto para outra.

A verdade é que nós não fomos feitos para o trânsito. O carro foi.